Motoristas valorizam marca na hora de abastecer

Consumidor confia em bandeiras de qualidade para não cair nas armadilhas do combustível adulterado

Primeiro, o carro começa a “engasgar” e o motor perde a mesma potência. Depois o motorista sente dificuldade para dar a partida. No painel, uma luzinha aponta que algo está errado. O indicador de combustível passa a oscilar e, muitas vezes, o consumo aumenta sem motivo aparente. É hora de ficar alerta, porque esses são alguns dos sintomas de que um carro foi abastecido com combustível adulterado.

Muitos motoristas que viveram essa dor de cabeça passaram a dar atenção a uma lição fundamental: você pode evitar muitos problemas se, ao abastecer, escolher combustível de uma marca de alta qualidade, credibilidade reconhecida e absoluta confiança pois, certamente, ali encontrará o produto que de fato está sendo oferecido.

A aparente economia ao encher o tanque com gasolina, diesel ou etanol mais barato encontrado em um posto desconhecido pode se tornar um grande prejuízo. Nos casos menos graves, basta a simples troca de uma peça. Quando os danos são extremos, porém, há um alto custo para o motorista e até a ocorrência de acidentes.

Para a empresária Renata da Cruz, colocar sempre a mesma gasolina aditivada de uma única marca virou um mantra desde que, em fevereiro deste ano, seu Fiat Palio “bateu o motor”. Os problemas começaram 15 dias depois que ela abasteceu em um posto que não era o de sua preferência, durante uma viagem para a região serrana.

— Nem foi por causa de preço baixo, mas era o posto que tinha na estrada. Logo depois meu carro ficou engasgando, começou a dar problema até pifar de vez. Tive um prejuízo de R$ 4 mil. Nem o fato de eu conhecer o básico de mecânica me livrou desse problema — lamenta Renata, dona de uma oficina no Leblon.

Garantir ao consumidor o direito de escolher entre as muitas opções do mercado de combustíveis sem cair nas armadilhas da adulteração e da concorrência desleal é uma das preocupações da Plural (Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência) que, em 2016, criou a campanha Combustível Legal , com ações para combater ilicitudes como sonegação e fraudes nas bombas.

No mercado brasileiro de combustíveis, a importância da marca tem peso fundamental. A pesquisa BrandZ, feita anualmente pela Kantar, que procura medir o equity (poder de uma marca) de empresas no mundo inteiro, indica que, no Brasil, 46,7% do processo de escolha do combustível é baseado na marca do produto. Está à frente de outros fatores, como a localização do posto e o preço.

— Os patamares mais elevados de contribuição da marca no processo de escolha estão no Brasil e na China. São mercados que tiveram regulação recente. No Brasil, houve muitos problemas em relação à adulteração de combustível e o consumidor ficou precavido em relação a isso — afirma Eduardo Tomiya, diretor executivo da Kantar Brasil.

À medida que o consumidor brasileiro compreende a importância de uma marca confiável, cresce também a valorização das bandeiras dos postos de gasolina, ou seja, da marca da distribuidora do combustível que cada posto vende em suas bombas. Por isso é tão importante que, quando vai a um posto de marca, o consumidor tenha a certeza de que o combustível que está comprando tenha esta mesma marca.

— A questão é a confiança do consumidor em determinada marca. Primeiro ele escolhe a marca, depois decide se será combustível comum, premium ou qualquer outro tipo. Estamos lidando com uma paixão do brasileiro, que é o carro. Ele não quer um produto que possa tornar esse ativo vulnerável — lembra Tomiya.

No país, mais de 150 distribuidoras levam combustíveis a 40 mil postos. Embora o setor seja concentrado na atividade de refino, é competitivo na distribuição e na revenda. Com a abertura do mercado de refino, a tendência é que a concorrência se amplie, em benefício do consumidor, que pode escolher com liberdade entre várias opções. Para isso, é fundamental o combate à fraude e a garantia da concorrência leal.

Além da adulteração de combustíveis e da sonegação de tributos, que chega a aproximadamente R$ 7 bilhões por ano*, outra prática ilegal, especialmente em postos fora dos grandes centros, é a imitação da identificação visual das grandes marcas. Estabelecimentos que copiam o layout de distribuidoras renomadas muitas vezes fazem o consumidor acreditar que está comprando aquela marca, mas depois percebe que era apenas uma cópia. Os crimes contra marcas e de concorrência desleal estão previstos na lei 9279/96 e preveem penas de três meses a um ano de prisão ou multa.

— Temos uma boa lei para preservar os direitos de marca. As penas poderiam ser um pouco mais severas, porém hoje já há conscientização maior dos juízes e operadores do Direito para coibir a prática ilícita. A relevância da marca cresce ano a ano, em todos os segmentos, e os postos de combustíveis não fogem à regra. O consumidor sabe que ali vai encontrar um produto ou um serviço que o distingue dos demais. O consumidor tem direito de buscar qualidade e preço, mas não pode ser enganado — diz o advogado Fábio Leme, do escritório Daniel Advogados, especializado em propriedade intelectual.

Gerente do posto Praia de Copacabana, que funciona dia e noite na altura do Lido, na orla do Rio, Luiz Cláudio Modesto da Silva sabe que confiança é o segredo para garantir a fidelidade do consumidor:

— Se um cliente mostra preocupação com combustível adulterado, nós fazemos na hora o teste, colocando a gasolina na ampola, e ele pode conferir que está dentro das normas. Ele sabe que ali vai ter sempre o mesmo produto, de qualidade. O cliente quer bom combustível, bom preço e bom atendimento. É isso que vai fazê-lo voltar sempre.

* Fonte: Fundação Getulio Vargas (FGV) Julho 2019 e Plural

 

Matéria publicada no jornal O Globo. Leia aqui.

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