Inteligência Artificial: insights do primeiro encontro do Grupo de Pesquisa Daniel Lab

Por Andréia Santos e Luciano da Fonseca

A perspectiva de criatividade e inovação com intuito tecnológico sempre existiu na sociedade, respeitando suas capacidades e delimitações ao longo das décadas, perpassando desde a invenção da roda até a Inteligência Artificial, que é o nosso principal assunto no Daniel Lab.

A ideia de Inteligência Artificial – pasmem – já era pensada na Grécia Antiga, cerca de 300 anos A.C. por Aristóteles, ainda que de maneira simples e rústica, quando conjecturava sobre a possibilidade de substituir mão-de-obra escrava em afazeres básicos como varrer uma casa, por exemplo, trocando-o por uma vassoura com “dispositivos” que lhe permitissem atuar sozinha, tendo vontade própria e estabelecendo um sistema de arrumação[1].

Certamente, isso era impossível de se realizar naquela época, mas observar que a indagação filosófica sobre uma prematura Inteligência Artificial ultrapassa milênios é, no mínimo, motivadora e instigante. E são esses os sentimentos que possuímos, de não apenas imaginar possibilidades, mas de estudar e desenvolver meios de se tornarem aplicáveis e impulsionadoras. Até porque, o que um dia foi uma ideia para Aristóteles, hoje é realidade para nós, como os robôs de limpeza ou Robotic Housekeepers. Então, o que nos impede de fazer o mesmo, ou até mais?

Movidos pela criatividade e curiosidade, realizamos levantamentos e estudos sobre as aplicações disponíveis no mercado de inteligência artificial e os respectivos impactos que as relações humano-máquinas causam e podem causar na economia, cultura, sociedade, raça, gênero, política, saúde e, mais objetivamente, no meio empresarial.

Em outubro de 2018, o McKinsey Global Institute publicou um relatório bem interessante sobre as promessas e os desafios dessa era da Inteligência Artificial, o qual tem direcionado nossas reflexões iniciais e que merecem ser pontuadas ao longo deste texto.

Vislumbrando o nicho de negócios, os benefícios da tecnologia em questão perpassam algumas áreas, dentre elas: (a) manutenção preditiva, ou seja, a habilidade de gerar previsões, tonando possível a análise de um grande volume de dados, como áudio e imagens, para detectar anomalias em linhas de produção, aeronaves, diagnóstico médico, por exemplo; (b) questões logísticas, como otimização de roteamento de tráfego, otimização do tempo de montagem e auxiliar na eficiência e redução de custos com combustível; e (c) serviço ao cliente, melhorando o atendimento e a jornada de experiência ao público, por meio de “chatbots”, que visam responder as demandas e os pedidos dos usuários com uma inteligência artificial, ao invés de uma pessoa.

A impulsão da inovação no meio business torna esse nicho cada vez mais fluido e agregador visando melhores receitas, alcançando e atendendo novos mercados, gerando novos tipos de produtos e serviços, influenciando o comércio internacional e a transferência global de dados.

Entretanto, para tornar a inteligência artificial um capital global, é necessário que vejamos os desafios que envolvem a implementação de ferramentas pautadas nessa inovação tecnológica, de forma a ampliar a visão para além dos possíveis benefícios, como também nos desafios e dificuldades que, assim como todo tipo de inovação, trazem à nossa sociedade.

Ainda que a IA traga novas profissões e habilidades ao mercado de trabalho com o intuito de alavancar a produtividade, é necessário que as estruturas administrativas públicas e privadas estejam continuamente se inovando e acompanhando o mercado, investindo em P&D e em capital humano, a fim de alfabetizar digitalmente tanto líderes empresariais quanto políticos e a própria sociedade.

Vale lembrar que o próprio sistema educacional deve ser repensado com o intuito de superar gaps funcionais que naturalmente ocorrerão – as rápidas mudanças advindas do processo das inovações tecnológicas dificilmente serão absorvidas com a mesma intensidade e celeridade pela mente humana, como bem aponta o historiador Yuval Noah Harari, seu livro “21 Lições para o Século 21”.

Além disso, as próprias definições de políticas públicas e estratégias de negócio sofrerão o impacto do desenvolvimento tecnológico. Invariavelmente, tanto o setor público quanto o privado deverão considerar o dinamismo do mercado de trabalho, o aprimoramento de processos de recrutamento, a ampliação de formas de trabalho, aspectos regulatórios, normas sociais e aceitação social para repensar modelos de transição e de segurança para os trabalhadores que não desenvolverem as habilidades necessárias para essa nova realidade.

Nos anos de 2017 e 2018, a Finlândia implementou um programa de renda básica para os cidadãos desempregados, a fim de averiguar como deveriam ser as ajudas sociais na era da informatização. Sua aplicação, ainda que de forma experimental, dividiu opiniões[2].

No que tange à aceitação social da Inteligência Artificial, vê-se que está diretamente ligada a políticas públicas que busquem, sobretudo, difundir conhecimento ao usuário sobre essa nova sociedade que tem sido criada em torno de funcionalidades tecnológicas e que promovam e protejam valores e direitos humanos fundamentais como a privacidade, concedendo ao consumidor autodeterminação informativa (um dos principais pilares da Lei Geral de Proteção de Dados Brasileira).

Conjuntamente, deve-se assegurar o bem-estar social, a universalidade, a transparência e a liberdade no que tange a gênero, cor, etnia, deficiência física ou psíquica e orientação sexual, atentando-se para a solução de problemáticas já existentes como deep fakes, segurança cibernética, sistemas de justiça criminal enviesados e uso indevido de bots para desinformação em mídias sociais.

Lembrando-se que tais políticas públicas devem promover incentivos à inovação, balanceando interesses de titularidade e demais direitos de propriedade intelectual para o setor empresarial em prol da livre iniciativa, livre concorrência e desenvolvimento econômico.

Um outro ponto relevante, é que a Inteligência Artificial foi desenvolvida, inicialmente, para resolver problemas específicos. Em meio a tantas novas ramificações, aplicações e necessidades da sociedade, precisa ser revista sob uma ótica multidisciplinar, inclusive, filosófica e sociológica. Como integrar humanos e máquinas em um mesmo ambiente?

Exemplo prático que nos mostra o progresso irrestrito da Inteligência Cognitiva é o caso do Watson, software da IBM que vem, aos poucos, crescendo no mercado. A plataforma, conectada diretamente à rede tem acesso a artigos e pesquisas para acumulo de capital intelectual, além da aprendizagem direta com contato humano que lhe permite uma vasta inteligência em assuntos específicos, calculando probabilidades e dando opções de escolha nos assuntos permitidos.

Hoje, o Watson presta soluções baseadas em valor para otimizar desempenho e gerenciar escolhas mais assertivas. É o caso do Watson Health, que presta uma assistência efetiva no gerenciamento da saúde, dando diagnósticos para pessoas doentes, ajudando em pesquisas de medicamentos com o Watson for Drug Discovery e fornecendo uma medicina de precisão genética com o Watson for Genomics.

Saindo do setor de saúde, a IBM também traz o Watson Financial Service, que ajudará principalmente os bancos a atender as expectativas das reguladoras em áreas como lavagem de dinheiro e bancos de dados de reclamações do consumidor, aprendendo e atualizando as informações críticas e ingerindo mais informações assim quando criadas. A IBM também vem aprimorando o Watson para segurança cibernética com integração nas operações de segurança de corporações.

Mediante tamanhas transformações, atuais e vindouras, precisamos estar sempre alertas e estimulados a pensar a aplicabilidade dessas tecnologias nos nossos meios sociais, observando as faces desse processo evolutivo e indagando sua execução em prol de uma Inteligência Artificial que seja diversa, concisa e efetiva, deixando de
lado aquela perspectiva depreciativa de uma “Skynet” como em o “Exterminador do Futuro”. Sejamos atores de uma transformação digital humanizada e moldada para o bem comum.

 

[1] BBVA. What would Aristotle say about artificial intelligence? Disponível em: https://www.bbva.com/en/what-would-aristotle-say-artificial-intelligence/

[2] El País. Finlândia conclui experiência de renda básica universal com resultados ambíguos. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/09/economia/1549710265_204922.html

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