Advogados com perfil mais digital ganham espaço nos escritórios

Adoção de novas tecnologias muda a forma de trabalhar e requer outras habilidades profissionais

A adesão ao trabalho remoto, por conta do distanciamento social obrigatório, acelerou transformações na rotina dos advogados. A tendência de aplicar recursos como a inteligência artificial (IA) ou a análise automática de dados na verificação de processos ganhou corpo e desenha um novo perfil do profissional de direito, exigido por clientes e bancas de advocacia cada vez mais digitais. “Os profissionais deverão não apenas aprender a usar novas ferramentas em suas práticas, como também estudar o impacto da tecnologia nas áreas em que atuam”, explica Fernando Serec, CEO do TozziniFreire, escritório com 987 advogados

É o caso de Victor Cabral Fonseca, admitido na banca há três anos. Ingressou no departamento de startups & inovação, criado em 2016, e no segundo ano de trabalho, ajudou a por de pé um programa batizado de ThinkFuture, que conduz projetos de transformação digital e aquisição de tecnologias. Hoje, o advogado coordena a iniciativa e atende clientes como startups e corporações interessadas em atividades de inovação aberta.

“A inovação jurídica não se resume ao desenvolvimento e adoção de ferramentas de TI [tecnologia da informação]”, explica Fonseca. “Também significa colaboração e relacionamento com os clientes. O advogado deverá atuar como um parceiro de negócios para ajudá-los a atingir seus objetivos.”

Para chegar à posição que ocupa, Fonseca investiu em capacitação e em uma rede de relacionamentos afinada com o ambiente de tecnologia. Depois da graduação em direito na Universidade de São Paulo (USP), tornou-se mestre em direito dos negócios e desenvolvimento econômico e social pela Fundação Getúlio Vargas (FVG), com um trabalho sobre transformações tecnológicas na carreira jurídica, e ainda garantiu um certificado em inovação exponencial pela Singularity University, plataforma internacional de aprendizado. Também é professor de direito em startups, no Insper, e publicou o livro “Direito das startups”, pela editora Saraiva.

“Um dos projetos mais importantes no escritório envolve ‘visual law’, que tem o apoio de designers gráficos para a reformulação de documentos jurídicos”, explica. “O visual law” emprega elementos visuais e gráficos em petições e memorandos para deixar as ações mais fáceis de serem entendidas pelos clientes.

A novidade faz parte de uma série de mudanças que o TozziniFreire patrocina nos últimos anos, baseada na aquisição de sistemas voltados à prática advocatícia e em sintonia com o surgimento de novas tecnologias, apresentadas pelas legaltechs

(startups que criam produtos e serviços para o setor). De acordo com a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), o número de negócios no segmento cresceu cerca de 300%, entre 2017 e 2019, e conta com mais de 100 companhias.

O escritório já contratou startups para projetos de automação de documentos e utiliza robôs que monitoram os andamentos processuais nos tribunais – a ideia é ganhar tempo e precisão em operações que envolvem a análise de grandes volumes de registros. Agora, testa soluções de IA para a leitura de contratos e auditorias.

Também desenvolvemos um sistema próprio de analytics (análise de dados), que permite ao cliente uma visão detalhada dos casos, os assuntos das ações, os tribunais onde correm e as taxas de sucesso, diz Serec. A primeira versão do programa, lançada em 2019, foi alimentada com mais de 50 mil dados de processos. Criada para um cliente, hoje está disponível para toda a área de contencioso. Em fevereiro, a banca finalizou a implantação de ferramentas colaborativas para costurar uma maior integração entre os executivos, dinamizar o compartilhamento de informações e a gestão de projetos. A iniciativa facilitou a transição para o home office quando a pandemia se intensificou e já se provou eficiente nas tarefas em grupo. A duração da reunião mensal dos sócios do escritório – que são 82 – caiu de quatro para duas horas, garante o CEO.

Antes do isolamento social, a empresa tinha uma média mensal de 500 reuniões virtuais, 880 ligações e 7,4 mil mensagens de chat internas. Com o trabalho em casa, a quantidade de encontros remotos subiu para 6,1 mil, com 7,7 mil chamadas e 559 mil interações on-line. Em relação à receita, há uma projeção de alta de, ao menos, 20% a 25% no período da pandemia, até julho, ante os mesmos meses de 2019. Foram notados avanços na demanda nas áreas trabalhista, tributária e contencioso. “Estimamos também um aumento das operações de fusões, aquisições e do mercado de capitais, nos próximos meses.” Não houve demissões relacionadas à crise do coronavírus.

No escritório Faria, Cendão & Maia Advogados (Femlaw), as rotinas de trabalho por conta do distanciamento social pouco se alteraram, de acordo com o sócio-fundador Fábio Cendão. “Nossa atuação já era digital, com o armazenamento de arquivos em nuvem e utilização de videoconferência entre equipes e clientes”, diz. “Nunca dependemos de documentos físicos ou ambientes presenciais.”

O próprio Cendão é um retrato 3×4 da operação do escritório de 18 advogados e especializado em direito empresarial e societário, com foco em startups – mais de 600 foram atendidas desde 2014. “Utilizo a plataforma Teams para comunicação, além de soluções de gestão e controle de processos administrativos de marcas, com o envio automatizado de andamentos, publicações e controle de prazos”, enumera.

O escritório, que utiliza mais de dez softwares diferentes no dia a dia, firmou parceria com a legaltech Verifact, de produção de provas para casos de violação de direitos autorais na internet, e já “incubou” outro empreendimento, a YourBase, de elaboração digital de contratos e petições.

Durante a pandemia (de março a julho), o faturamento engordou 89,2% em comparação ao mesmo intervalo do ano passado. O movimento foi estimulado por empresas que fornecem tecnologias para problemas agravados pela crise sanitária e que buscam serviços jurídicos, principalmente nos segmentos societário, de contratos e propriedade intelectual.

Cendão diz que o escritório finaliza um sistema de gestão, baseado em conceitos de tomada de decisões mais ágeis, comum entre as startups, seus principais clientes. Todo o nosso modelo de negócio será viabilizado por meio de uma plataforma, que incluirá atendimento, automatização de tarefas, agendamento de reuniões e coleta de informações para prestação de serviços, enumera.

A demanda por inovação e tecnologia na área jurídica acabou gerando um spin-off do Femlaw, a Legalhack, que nasceu como um hackathon (maratona de tecnologia), em 2017. A empresa oferece cursos, com mais de 300 alunos atendidos, projetos de transformação digital, consultoria e trabalhos de “visual law”. Nos próximos meses, terá aulas sobre a tecnologia blockchain na esfera jurídica, diz Cendão, que também é professor do Legal Class, curso on-line sobre direito para startups, desenvolvido com a escola de negócios StartSe.

“Nos próximos anos, o advogado precisará ser multidisciplinar e dotado de competências não jurídicas para ser completo”, avalia Cendão que, desde março, admitiu quatro profissionais, sendo dois advogados e dois especialistas em TI, para os departamentos de governança, contratos e tecnologia. A lista inclui um novo sócio, o empreendedor Gabriel Laender, baseado dos Estados Unidos, na função de chief technology officer (CTO). Até o final do ano, o plano é garimpar mais três currículos para os times consultivo, societário e de propriedade intelectual.

Conhecimentos sobre design e tecnologia serão fundamentais para que os profissionais criem soluções que eliminem tarefas repetitivas no direito e permitam a tomada de decisões baseadas em dados, diz. “Além disso, humildade, inteligência emocional e disposição para aprender serão determinantes para que os advogados sobrevivam numa era em que tudo muda muito rápido.”

Cursos de direito mudam currículo para atender o mercado

Disciplinas incluem habilidades necessárias para formar advogados com conhecimento digital

O advogado que sabe aplicar recursos de tecnologia no expediente e ainda está atualizado com as ferramentas do mercado é o n ovo “ouro” dos escritórios e departamentos jurídicos de grandes empresas. Mas, uma pesquisa realizada este ano pelo Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA) e a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), com 649 bancas, sinaliza que o casamento do mundo das leis com a inovação ainda tem muito chão pela frente. Entre escritórios com mais de 100 advogados, 73% ainda não utilizam os serviços das legaltechs, startups especializadas em sistemas que aceleram a produtividade no setor. Para preparar um advogado “mais digital”, cursos de direito reformam as grades curriculares.

“O profissional precisa ter curiosidade para estar sempre aprendendo, além de se atualizar com as tendências do setor”, aconselha Eduardo Palinkas, diretor jurídico da Hewlett Packard Enterprise Brasil (HPE), gigante do mercado de tecnologia. O executivo lidera dois profissionais no modelo “secondment” (alocação temporária de advogados de escritórios externos) e tem 12 bancas cadastradas, de diferentes especialidades, para atender demandas da companhia.

Com o crescimento do número de tecnologias que usam inteligência artificial (IA) ou machine learning (aprendizado de máquina) no direito, o advogado vai precisar de uma formação multidisciplinar, agregando conhecimentos não-jurídicos e criatividade para entregar soluções aos clientes, diz Palinkas. “As empresas querem que o executivo mostre  tomadas de decisões ágeis e capacidade de lidar com o novo.”

Os professores Maria Paula Dallari Bucci e Otávio Pinto e Silva, respectivamente presidente e vice-presidente da comissão de graduação da Faculdade de Direito da USP, dizem que os avanços tecnológicos já permeiam temas do curso, em disciplinas sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O profissional deve compreender as repercussões das inovações nas relações jurídicas, nos direitos do consumidor e nos crimes cibernéticos, diz Maria Paula. Para Pinto e Silva, a evolução da carreira já cravou atualizações em matérias como processo civil, tendo em vista a informatização dos trâmites judiciais; e de direito penal, em razão de delito cometidos com o uso de ferramentas eletrônicas.

Fernanda Paes Leme, coordenadora do curso de direito do Ibmec-RJ, destaca que a chegada da IA nos tribunais, para aumentar a velocidade de avaliação dos processos, sinaliza urgência na atualização profissional. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), realizada este ano, aponta que 50% dos tribunais brasileiros estão em fase de implementação ou já contam com recursos de IA. “Nos próximos anos, também será necessário noções mínimas sobre inovações que compõem a indústria 4.0, como a internet das coisas e o blockchain.”

Neste segundo semestre de 2020, a graduação do Ibmec -RJ iniciou uma nova grade curricular, cocriada com representantes do mercado, com disciplinas específicas, como “Dados e novos negócios” e “Programação aplicada ao direito”.

Alícia Daniel-Shores, sócia sênior e CEO do Daniel Advogados, com 44 profissionais, diz que acelerou investimentos em IA e big data. “A mineração de dados e a geração de informação relevante é o petróleo da nossa indústria”, diz. No ano passado, introduziu um software de busca de documentos, desenvolvido pela própria equipe e capaz de indexar papéis que englobam os mais de 60 anos de operação do escritório. “É como se tivéssemos criado o nosso ‘Google’, que auxilia a rotina de todos os departamentos.”

Apesar de associarmos esse “novo” advogado às habilidades tecnológicas, há outras competências que serão tão ou mais importantes no futuro, lembra Fernando Serec, CEO do TozziniFreire. “Como liderança, saber como gerenciar projetos e fazer gestão financeira que, antes, não eram ligadas a advogados, hoje são fundamentais.”

Matéria publicada no Valor Econômico. Leia aqui.

Adoção de novas tecnologias muda a forma de trabalhar e requer outras habilidades profissionais

A adesão ao trabalho remoto, por conta do distanciamento social obrigatório, acelerou transformações na rotina dos advogados. A tendência de aplicar recursos como a inteligência artificial (IA) ou a análise automática de dados na verificação de processos ganhou corpo e desenha um novo perfil do profissional de direito, exigido por clientes e bancas de advocacia cada vez mais digitais. “Os profissionais deverão não apenas aprender a usar novas ferramentas em suas práticas, como também estudar o impacto da tecnologia nas áreas em que atuam”, explica Fernando Serec, CEO do TozziniFreire, escritório com 987 advogados

É o caso de Victor Cabral Fonseca, admitido na banca há três anos. Ingressou no departamento de startups & inovação, criado em 2016, e no segundo ano de trabalho, ajudou a por de pé um programa batizado de ThinkFuture, que conduz projetos de transformação digital e aquisição de tecnologias. Hoje, o advogado coordena a iniciativa e atende clientes como startups e corporações interessadas em atividades de inovação aberta.

“A inovação jurídica não se resume ao desenvolvimento e adoção de ferramentas de TI [tecnologia da informação]”, explica Fonseca. “Também significa colaboração e relacionamento com os clientes. O advogado deverá atuar como um parceiro de negócios para ajudá-los a atingir seus objetivos.”

Para chegar à posição que ocupa, Fonseca investiu em capacitação e em uma rede de relacionamentos afinada com o ambiente de tecnologia. Depois da graduação em direito na Universidade de São Paulo (USP), tornou-se mestre em direito dos negócios e desenvolvimento econômico e social pela Fundação Getúlio Vargas (FVG), com um trabalho sobre transformações tecnológicas na carreira jurídica, e ainda garantiu um certificado em inovação exponencial pela Singularity University, plataforma internacional de aprendizado. Também é professor de direito em startups, no Insper, e publicou o livro “Direito das startups”, pela editora Saraiva.

“Um dos projetos mais importantes no escritório envolve ‘visual law’, que tem o apoio de designers gráficos para a reformulação de documentos jurídicos”, explica. “O visual law” emprega elementos visuais e gráficos em petições e memorandos para deixar as ações mais fáceis de serem entendidas pelos clientes.

A novidade faz parte de uma série de mudanças que o TozziniFreire patrocina nos últimos anos, baseada na aquisição de sistemas voltados à prática advocatícia e em sintonia com o surgimento de novas tecnologias, apresentadas pelas legaltechs

(startups que criam produtos e serviços para o setor). De acordo com a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), o número de negócios no segmento cresceu cerca de 300%, entre 2017 e 2019, e conta com mais de 100 companhias.

O escritório já contratou startups para projetos de automação de documentos e utiliza robôs que monitoram os andamentos processuais nos tribunais – a ideia é ganhar tempo e precisão em operações que envolvem a análise de grandes volumes de registros. Agora, testa soluções de IA para a leitura de contratos e auditorias.

Também desenvolvemos um sistema próprio de analytics (análise de dados), que permite ao cliente uma visão detalhada dos casos, os assuntos das ações, os tribunais onde correm e as taxas de sucesso, diz Serec. A primeira versão do programa, lançada em 2019, foi alimentada com mais de 50 mil dados de processos. Criada para um cliente, hoje está disponível para toda a área de contencioso. Em fevereiro, a banca finalizou a implantação de ferramentas colaborativas para costurar uma maior integração entre os executivos, dinamizar o compartilhamento de informações e a gestão de projetos. A iniciativa facilitou a transição para o home office quando a pandemia se intensificou e já se provou eficiente nas tarefas em grupo. A duração da reunião mensal dos sócios do escritório – que são 82 – caiu de quatro para duas horas, garante o CEO.

Antes do isolamento social, a empresa tinha uma média mensal de 500 reuniões virtuais, 880 ligações e 7,4 mil mensagens de chat internas. Com o trabalho em casa, a quantidade de encontros remotos subiu para 6,1 mil, com 7,7 mil chamadas e 559 mil interações on-line. Em relação à receita, há uma projeção de alta de, ao menos, 20% a 25% no período da pandemia, até julho, ante os mesmos meses de 2019. Foram notados avanços na demanda nas áreas trabalhista, tributária e contencioso. “Estimamos também um aumento das operações de fusões, aquisições e do mercado de capitais, nos próximos meses.” Não houve demissões relacionadas à crise do coronavírus.

No escritório Faria, Cendão & Maia Advogados (Femlaw), as rotinas de trabalho por conta do distanciamento social pouco se alteraram, de acordo com o sócio-fundador Fábio Cendão. “Nossa atuação já era digital, com o armazenamento de arquivos em nuvem e utilização de videoconferência entre equipes e clientes”, diz. “Nunca dependemos de documentos físicos ou ambientes presenciais.”

O próprio Cendão é um retrato 3×4 da operação do escritório de 18 advogados e especializado em direito empresarial e societário, com foco em startups – mais de 600 foram atendidas desde 2014. “Utilizo a plataforma Teams para comunicação, além de soluções de gestão e controle de processos administrativos de marcas, com o envio automatizado de andamentos, publicações e controle de prazos”, enumera.

O escritório, que utiliza mais de dez softwares diferentes no dia a dia, firmou parceria com a legaltech Verifact, de produção de provas para casos de violação de direitos autorais na internet, e já “incubou” outro empreendimento, a YourBase, de elaboração digital de contratos e petições.

Durante a pandemia (de março a julho), o faturamento engordou 89,2% em comparação ao mesmo intervalo do ano passado. O movimento foi estimulado por empresas que fornecem tecnologias para problemas agravados pela crise sanitária e que buscam serviços jurídicos, principalmente nos segmentos societário, de contratos e propriedade intelectual.

Cendão diz que o escritório finaliza um sistema de gestão, baseado em conceitos de tomada de decisões mais ágeis, comum entre as startups, seus principais clientes. Todo o nosso modelo de negócio será viabilizado por meio de uma plataforma, que incluirá atendimento, automatização de tarefas, agendamento de reuniões e coleta de informações para prestação de serviços, enumera.

A demanda por inovação e tecnologia na área jurídica acabou gerando um spin-off do Femlaw, a Legalhack, que nasceu como um hackathon (maratona de tecnologia), em 2017. A empresa oferece cursos, com mais de 300 alunos atendidos, projetos de transformação digital, consultoria e trabalhos de “visual law”. Nos próximos meses, terá aulas sobre a tecnologia blockchain na esfera jurídica, diz Cendão, que também é professor do Legal Class, curso on-line sobre direito para startups, desenvolvido com a escola de negócios StartSe.

“Nos próximos anos, o advogado precisará ser multidisciplinar e dotado de competências não jurídicas para ser completo”, avalia Cendão que, desde março, admitiu quatro profissionais, sendo dois advogados e dois especialistas em TI, para os departamentos de governança, contratos e tecnologia. A lista inclui um novo sócio, o empreendedor Gabriel Laender, baseado dos Estados Unidos, na função de chief technology officer (CTO). Até o final do ano, o plano é garimpar mais três currículos para os times consultivo, societário e de propriedade intelectual.

Conhecimentos sobre design e tecnologia serão fundamentais para que os profissionais criem soluções que eliminem tarefas repetitivas no direito e permitam a tomada de decisões baseadas em dados, diz. “Além disso, humildade, inteligência emocional e disposição para aprender serão determinantes para que os advogados sobrevivam numa era em que tudo muda muito rápido.”

Cursos de direito mudam currículo para atender o mercado

Disciplinas incluem habilidades necessárias para formar advogados com conhecimento digital

O advogado que sabe aplicar recursos de tecnologia no expediente e ainda está atualizado com as ferramentas do mercado é o n ovo “ouro” dos escritórios e departamentos jurídicos de grandes empresas. Mas, uma pesquisa realizada este ano pelo Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA) e a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), com 649 bancas, sinaliza que o casamento do mundo das leis com a inovação ainda tem muito chão pela frente. Entre escritórios com mais de 100 advogados, 73% ainda não utilizam os serviços das legaltechs, startups especializadas em sistemas que aceleram a produtividade no setor. Para preparar um advogado “mais digital”, cursos de direito reformam as grades curriculares.

“O profissional precisa ter curiosidade para estar sempre aprendendo, além de se atualizar com as tendências do setor”, aconselha Eduardo Palinkas, diretor jurídico da Hewlett Packard Enterprise Brasil (HPE), gigante do mercado de tecnologia. O executivo lidera dois profissionais no modelo “secondment” (alocação temporária de advogados de escritórios externos) e tem 12 bancas cadastradas, de diferentes especialidades, para atender demandas da companhia.

Com o crescimento do número de tecnologias que usam inteligência artificial (IA) ou machine learning (aprendizado de máquina) no direito, o advogado vai precisar de uma formação multidisciplinar, agregando conhecimentos não-jurídicos e criatividade para entregar soluções aos clientes, diz Palinkas. “As empresas querem que o executivo mostre  tomadas de decisões ágeis e capacidade de lidar com o novo.”

Os professores Maria Paula Dallari Bucci e Otávio Pinto e Silva, respectivamente presidente e vice-presidente da comissão de graduação da Faculdade de Direito da USP, dizem que os avanços tecnológicos já permeiam temas do curso, em disciplinas sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O profissional deve compreender as repercussões das inovações nas relações jurídicas, nos direitos do consumidor e nos crimes cibernéticos, diz Maria Paula. Para Pinto e Silva, a evolução da carreira já cravou atualizações em matérias como processo civil, tendo em vista a informatização dos trâmites judiciais; e de direito penal, em razão de delito cometidos com o uso de ferramentas eletrônicas.

Fernanda Paes Leme, coordenadora do curso de direito do Ibmec-RJ, destaca que a chegada da IA nos tribunais, para aumentar a velocidade de avaliação dos processos, sinaliza urgência na atualização profissional. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), realizada este ano, aponta que 50% dos tribunais brasileiros estão em fase de implementação ou já contam com recursos de IA. “Nos próximos anos, também será necessário noções mínimas sobre inovações que compõem a indústria 4.0, como a internet das coisas e o blockchain.”

Neste segundo semestre de 2020, a graduação do Ibmec -RJ iniciou uma nova grade curricular, cocriada com representantes do mercado, com disciplinas específicas, como “Dados e novos negócios” e “Programação aplicada ao direito”.

Alícia Daniel-Shores, sócia sênior e CEO do Daniel Advogados, com 44 profissionais, diz que acelerou investimentos em IA e big data. “A mineração de dados e a geração de informação relevante é o petróleo da nossa indústria”, diz. No ano passado, introduziu um software de busca de documentos, desenvolvido pela própria equipe e capaz de indexar papéis que englobam os mais de 60 anos de operação do escritório. “É como se tivéssemos criado o nosso ‘Google’, que auxilia a rotina de todos os departamentos.”

Apesar de associarmos esse “novo” advogado às habilidades tecnológicas, há outras competências que serão tão ou mais importantes no futuro, lembra Fernando Serec, CEO do TozziniFreire. “Como liderança, saber como gerenciar projetos e fazer gestão financeira que, antes, não eram ligadas a advogados, hoje são fundamentais.”

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