A mulher e o mercado de trabalho

Presença de mulheres em cargos de liderança aumenta resultados financeiros das empresas

O papel ocupado pela mulher no mercado de trabalho nunca foi de tanto destaque. Segundo pesquisa publicada pela Enlight, consultoria especializada em diversidade, o número de mulheres ocupando cargos de liderança no Brasil cresceu de 6,3% para 7,3% de 2017 para 2018, sendo o maior aumento registrado desde 2015.

Entretanto, ainda não há muitos motivos para comemorar. Apesar de os números mostrarem uma evolução no que diz respeito ao crescimento no número de mulheres no mercado de trabalho e em cargos de gestão, existem outros fatores a respeito da inclusão feminina que podem ser determinantes para a obtenção de maiores resultados pelas empresas, bem como para a melhoria de sua reputação diante de seus clientes, público interno, acionistas e investidores.

As estatísticas são um ingrediente a mais em um debate complexo, que envolve ainda a
desigualdade com os homens no que diz respeito à remuneração recebida, por exemplo. O tema está diretamente ligado ao modo como a sociedade se estruturou ao longo de sua história.

As ocupações associadas às mulheres são aquelas que derivam do histórico papel social da “mulher cuidadora”, que denotam status e remuneração relativamente menores. Na saúde, por exemplo, as auxiliares e técnicas de enfermagem (cargos com menor remuneração) são, em sua maioria, mulheres. Já os médicos cirurgiões são, em sua maior parte, homens, além de terem valorização social e remuneração infinitamente superiores. Essa discrepância ocorre na maioria dos setores.

O relatório “Mulheres na gestão empresarial: argumentos para uma mudança”, publicado em maio de 2019 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), indica que a presença de mulheres em cargos de liderança aumenta os resultados financeiros das empresas. Mais do que isso, a pesquisa feita com 13 mil empresas em 70 países concluiu que, para além da reputação no mercado, o aumento da diversidade no quadro de empregados trouxe avanços na criatividade, inovação e abertura. No Brasil, a diferença entre o número de mulheres ocupando cargos de liderança regulares e seniores é de 5%, o que indica que há uma boa perspectiva de crescimento das mulheres dentro das empresas, ou seja, as mulheres em cargos de liderança a nível pleno têm grandes possibilidades de serem promovidas a cargos de liderança a nível sênior.

Atento a este cenário no mercado de trabalho, o Jornal Empregos & Estágios entrevistou Renata Shaw, sócia e responsável pelo programa de diversidade e inclusão do escritório Daniel Advogados. Renata aborda como as oportunidades de acesso não têm sido iguais para todos os grupos sociais, dentro do cenário brasileiro. Confira a entrevista.

AS MULHERES AINDA ESTÃO EM DESVANTAGEM EM RELAÇÃO A HOMENS QUE OCUPAM O MESMO CARGO?

Na grande maioria dos casos sim. De acordo o relatório do último Fórum Econômico Mundial, é de 100 anos o tempo estimado para que a diferença salarial entre homens e mulheres desapareça. Isso sem falar que, em muitas famílias, a mulher ainda tem dupla jornada, sendo a grande responsável por cuidar da casa e da família, o que impacta em maior desgaste físico e, em determinadas circunstâncias, disponibilidade de tempo para fortalecimento de networking profissional.

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS FORMAS DE MACHISMO QUE A MULHER ENCARA DENTRO DO AMBIENTE DE TRABALHO?

São inúmeros, muitas vezes tão sutis que podem passar despercebido, como, por exemplo, aquelas situações em que a mulher está contribuindo com alguma opinião e um homem a interrompe; quando alguns homens duvidam da capacidade dela em acompanhar raciocínios lógicos ou matemáticos; quando a mulher dá alguma ideia e um homem pega aquela ideia e vende como dele; nas frases como “você está na TPM” ou “ela está de mimimi”.

COMO A CULTURA ORGANIZACIONAL DE UMA EMPRESA PODE INFLUENCIAR NA QUESTÃO DE IGUALDADE ENTRE GÊNEROS?

Cultura organizacional diz respeito a todas as normas formais ou informais, escritas ou não escritas, que representam as crenças e percepções dos dirigentes e funcionários da corporação. Logo, se a cultura organizacional refletir preconceitos e atrasos, é claro que isso vai influenciar a composição do ambiente, incluindo a igualdade entre gêneros. Por isso, é tão importante o combate a todo e qualquer tipo de discriminação. Na verdade, a igualdade entre gêneros é mais uma das lutas para que o ambiente de trabalho seja um ambiente livre de preconceitos entre as pessoas.

QUE MUDANÇAS VOCÊ ACHA MAIS NECESSÁRIAS PARA O MERCADO DE TRABALHO SER MAIS INCLUSIVO?

No caso brasileiro, as oportunidades de acesso não têm sido iguais para todos os grupos sociais. As mulheres, a população negra, as pessoas com deficiência e LGBTIs, têm enfrentado obstáculos efetivos de inserção no mercado de trabalho. E este assunto tem sido crescentemente discutido no âmbito corporativo, com o apoio e orientações da sociedade civil. Um caminho de superação é perceber que situações de desigualdade podem ser superadas com o estabelecimento de medidas e metas concretas de inclusão e equidade. Se há um menor número de mulheres em um determinado cargo ou função, é preciso encontrar mulheres habilitadas para estas posições. Porque elas seguramente existem. Precisamos ter sensibilidade para reconduzir ao mercado de trabalho pessoas que foram vítimas de acidentes de trânsito, por exemplo. O Brasil viu crescer de forma extraordinária o número de universitários negros nos últimos 15 anos. Precisamos acolher esta juventude no mercado de trabalho. Essas são algumas medidas com as quais as empresas deveriam se comprometer para trilhar um caminho de mudança.

HÁ PERSPECTIVA PARA QUE OS SALÁRIOS DAS MULHERES SE EQUIPAREM AOS DE HOMENS NO MESMO CARGO?

Essa é uma difícil pergunta, mas as empresas europeias, por exemplo, têm sido levadas a este caminho, inclusive atendendo novas legislações, como é o caso da Inglaterra. A ONU Mulheres está à frente de diversas iniciativas, dentre elas o Programa Ganha Ganha, que incentiva as empresas do setor privado a práticas de empoderamento das mulheres, o que inclui o estabelecimento de trabalho igual, salário igual. Na Daniel Advogados, nós temos feito a nossa parte. Desde janeiro deste ano, os rendimentos salariais entre homens e mulheres são iguais e as diferenças são resultantes apenas do tempo de contratação na empresa.

HÁ EMPRESAS QUE SE DESTACAM NA INCLUSÃO DE MULHERES?

Sim, claro. Nosso caso de igualdade salarial é um exemplo. Além disso, temos 60% de mulheres em posição de liderança e 53% de sócias, e somos liderados por uma CEO mulher, Alicia Daniel-Shores, que se pode dizer como um diferencial entre escritórios jurídicos. Temos visto crescer o debate sobre os ganhos de se ter mulheres em posição de decisão, como algo importante para a sustentabilidade e lucratividade das empresas. As mulheres têm se capacitado a essas posições e o mercado tem sido exposto a essas situações.

COMO UMA EMPRESA DEVE AGIR PARA EVITAR ASSÉDIOS E CONSTRANGIMENTOS NO AMBIENTE DE TRABALHO?

Um caminho ideal que tem sido discutido no mundo corporativo é iniciar esta trilha por meio de treinamentos, além de informar aos gestores que assédio não é um comportamento tolerado nos ambientes e nas relações de trabalho. O mesmo caminho deve ser seguido em relação aos(às) colaboradores(as), que devem ser envolvidos(as) em campanhas educativas de combate a estereótipos e preconceitos. Este é um assunto que diz respeito ao conjunto da organização e todos devem preservar um ambiente saudável, livre de assédio, mas sabemos que o papel da liderança é fundamental para este objetivo.

ESSA DESVALORIZAÇÃO ACONTECE TAMBÉM EM PROGRAMAS DE ESTÁGIO?

Sabemos que as mulheres jovens são as que têm maior escolaridade. Isso, em alguma medida, tem dado a elas uma certa vantagem em situações de estágio, o que não significa, por exemplo, que sejam acolhidas igualmente em todas as profissões, como nas áreas de Ciência e Tecnologia. Ou seja, situações de desigualdade de gênero também podem ocorrer em programas de estágio e devemos nos manter alertas para que isso não ocorra.

COMO UMA POLÍTICA DE COMPLIANCE TRABALHISTA PODE SER TRAÇADA PARA AJUDAR NO AUMENTO DE MULHERES NO QUADRO DE FUNCIONÁRIOS DE UMA EMPRESA?

Com o atual momento da Justiça do Trabalho, um compliance trabalhista, embora desejável, tende a ser menos utilizada. Os programas de diversidade, com ênfase na efetivação de princípios de direitos humanos, junto com um plano de ação voltado à equidade de gênero, podem trazer resultados mais efetivos. Isso é o que temos visto em alguns exemplos de empresas nacionais e internacionais. Para tal, é necessário um planejamento de médio a longo prazo, trabalho em conjunto que inclua da alta liderança à base de uma empresa e/ou organização.

 

Entrevista publicada no jornal Folha Dirigida.

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